sábado, 23 de outubro de 2010

PRIMEIRO BEIJO

História de primeiro beijo é história de amor ou história de quase amor. Na pior das hipóteses, história de amor próprio. É história de lirismo, de poesia e de flores; é conto de fadas e de ascese; tem sabor de acordes líricos e cheiro de ansiedade. Seja em uma estátua nua, seja à luz da lua, primeiro beijo entorpece a alma com o vício do amor ou com a desculpa do amor. Assim comigo foi. Ou quase foi. Não foi exatamente porque dos bêbados meu lirismo é, dos loucos seus acordes são e dos namorados é que não são. Meu primeiro beijo não foi em uma estatua nua tampouco à luz da lua. Foi mesmo no meio da rua de cujo nome não me lembro, um pouco depois da esquina. Em frente ao número 1859. Acalma-te. Explico-me. No meio da rua não acontecem apenas as mais sórdidas coisas, como agora pensas. Acontecem também primeiros beijos de adolescente, inocentes como eu o era.

Era apenas doze. Doze de setembro. Havia mais que vinte – pouco faltava para as nove da noite. E dezesseis. Eram os anos que, na minha vida, haviam se passado. Tinha, pois, dezesseis anos e não sabia o que era mulher. E não sabia mesmo. Não tinha computador nem coragem de comprar revistas. Mulher para mim eram Lara Croft, em Tomb-Raider; Débora Seco e Camila Pitanga, em Caramuru – A invenção do Brasil. Nada mais. E isso muito me incomodava, já que todos os meus amigos diziam ter tido muito mais que isso. Como? Ora... não é difícil entender que mais vale nos braços do que Camila Pitanga na TV.. O fato é que eu era o único e já me sentia incomodado com essa situação.

Até que um dia apareceu ela. Ela não é quem pesastes. É a irmã dela. É? Sim. Exatamente. Apareceu a irmã dela, ela, para me falar dela. Dizer que tinha despertado o interesse dela, pedir para que eu pensasse nela, para ver se eu gostasse dela e topasse dar um beijo nela. Em resumo, ela queria que eu ficasse com sua irmã. Eu não pensei. Decidi logo que meu primeiro beijo seria dela e pedi a ela para avisar. E assim ficou combinado. Não lembro se escrevi cartinhas, ou algumas recebi dela recebi. Sei que contava os dias, conversando com ela, sobre a vida dela, as coisas dela e a idade dela. Isso porque, na verdade, eu não sabia nada sobre ela. Sabia quem era e como era. O suficiente na minha situação. Só conhecia muito bem ela – uma grande amiga.

Compartilhava a minha euforia com meus amigos. Foram logo me avisando do dente e da língua; da língua e do dente. Você vai ver! Você vai ver! Sempre terminavam dizendo isso, e eu louco para ver. Esperava um churrasco, armado exclusivamente para mim, como quem espera fim de expediente. Iria ver finalmente o sabor do beijo dela, que, para mim, era tão bom quanto ir ao espaço. Disso eu tinha certeza. Mal pensava em minhas obrigações – tarefas escolares e algumas músicas do Guns' n Roses para aprender a tocar no contra-baixo. Era só felicidade. Desde a oitava série, quando me perguntaram, pela primeira vez, sobre isso e sobre filmes pornôs, esperava por esse churrasco. Iria faltar apenas o filme depois dela.

E veio o churrasco. Noite fresca. Amena. Em 2003 fazíamos churrascos com cinco reais cada um, e, mesmo assim, dava o que fazer para consegui-los com meus pais. Nesse eu precisei de dez. Paguei o dela, afinal, queria que outras primeiras coisas da vida também acontecessem comigo naquele dia. Vestia uma camiseta vermelha que a tenho ainda – quem me conhece sabe que não a guardo por esse motivo; quem me conhece sabe que a guardo porque ainda posso usá-la em casa – um shorts do qual não me lembro e tênis. É! E isso tudo também. Lembro-me, sim, do tempo que gastei me preparando, com vaidade que causava estranhamento em quem se acostumara com filho roqueiro. Nada de correntes, calças rasgadas ou camisetas de bandas. Parecia gente, dizia minha mãe. E era o que eu precisava parecer: gente, afinal, era a noite em que a seria de fato gente, humano.

Cheguei cedo ao local. Queria perguntar mais sobre línguas e dentes. E, por chegar cedo, a espera foi eterna. Ela e a irmã dela não apareciam. Já cria que havia levado um bolo – o primeiro, riam meus amigos – mas não foi bolo, não. Ela e a irmã dela chegaram. Primeiro ela, com aquela cara de quem cometeu algo errado. Na verdade, olhava-me como se eu fosse o cara mais safado da cidade. Justo eu, que estava ali, naquele dia, para deixar de ser o que sempre ficava preso à pergunta da oitava série, sem se safar nunca. E após ela, a irmã dela. Ela me passou todas as instruções de como devia agir perto dela. E para perto dela fui. Sem jeito, sem nunca ter trocado uma palavra, achando que era só chegar, ir, ir e... Mas não foi. O que se foi foi a simpatia dela. No meio de todos, também! Pensei que estava tudo perdido. Mas ela estava decidia e deu um jeito nela. Mandou-nos dar uma volta.

Saímos. Caminhávamos pela rua, minha mão próxima a dela, sem encostar. Andávamos rua a cima, conversando coisas frívolas. Eu não fazia ideia sobre o que ela pensava. Eu pensava em resolver aquilo logo. A pergunta da oitava... Queria poder me safar da pergunta da oitava série, ser um safado realmente, e tornar-me homem. O clima era tenso e o caminho já nos cansava, afinal, passos rápidos, corações ansiosos, subida – levei-a para caminhar na subida. E morro acima andávamos, até que a falta de destino nos fez parar e ficar embaixo de uma árvore, em frente ao 1859. Era o momento. Agarrei-as. Suas mãos estavam geladas, assim como as minhas, e falei sobre aquele ser um momento único, sobre as estrelas – abobrinhas que via em novelas. Ela não respondia, não falava nada e fez meu repertório pequeno de iniciante, de BV – não a financeira – acabar. E tudo estava perdido. Já estava desistindo, quando recebi um puxão e um beijo dela. Um beijo de verdade. No meio da rua cujo nome não sei até hoje, um pouco depois da esquina, em frete ao número 1859.

Finalmente! Como queria voltar a oitava série e olhar na cara de todos. Sim, lógico. Mas o Guilherminho, duvido! E rir. Não era possível, mas foi o que me passou pela cabeça quando terminamos. Estava apaixonado. Apaixonado por mim mesmo! Narciso, chamei-me, e o meu reflexo adorei. Como era bom! Sentia-me como quem tivera cumprido uma missão. Talvez dela fosse essa a impressão também. Não sei. E, depois da árdua subida, descemos – leves, sem conversar: eu com a certeza de ter feito o que tinha para fazer e, provavelmente, dela era essa a certeza também. Nunca descer a rua foi tão bom. Nunca pensei que teria, guardadas comigo, lembranças de uma rua descida. E descemos. E chegamos a casa onde o churrasco acontecia.

Ela veio correndo em nossa direção, deu um grito, e a atenção de todos chamou! Aplaudiram! Dei risadas e notei a vergonha dela. O que será que pensavam de mim e dela? Depois dessa recepção eu me afastei dela e fui conversar com ela. Disse tudo, não tinha a malícia da criatividade ainda. Ela achou "bonitinho", passou a me chamar de cunhado. Eu apenas ria. Falei tudo aos meus amigos também, sem a malícia da criatividade. Eles comemoraram. Aleluia! Irmão, diziam uns para brincar com querido amigo protestante, dono da casa. Era tudo diversão. E eu só queria isso: contar. Não me aproximei mais dela durante a festa, devido à minha agenda de contador de histórias cheia. Apenas no final: ela falou que sabia da fome dela e que era para eu levar uma linguiça ao prato dela. Fui à churrasqueira fria, peguei uma lingüiça e levei-lha.

Após esse ato nunca mais tive notícias dela. Após esse ato entendi que meu primeiro beijo não me fizera safado nem um pouco. Após esse ato entendi a importância da estatua nua.

3 comentários:

  1. O bacana é ler isso, sabendo que eu estava no fatídico churrasco descrito acima hahahahaha Parabéns pela sua escrita, pois transformou uma simples lembrança em um texto gostoso de ler.

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