domingo, 22 de agosto de 2010

GÊNERO – ARTIGO DE OPINIÃO

Artigos de opinião, também conhecidos como artigos assinados, são gêneros que circulam na mídia impressa com o objetivo de apresentar a opinião de seu autor sobre determinado assunto. São textos polêmicos, que buscam persuadir o leitor a concordar com seu ponto de vista e, dessa forma, se tornar mais um simpatizante de sua causa. Por vezes os articulistas – pessoas que escrevem artigo de opinião para – tornam-se personalidades influentes na sociedade. São escritores, especialistas em determinada área, jornalistas, todos imbuídos de fazer sua opinião ter espaço no grande debate midiático.

Devido ao seu aspecto argumentativo, prevalece no artigo de opinião a seqüência tipológica argumentativa. Isso faz o texto apresentar, além do título, uma introdução, na qual uma tese é exposta, um desenvolvimento, no qual argumentos que sustentam essa tese são trabalhados e uma conclusão responsável por reafirmar a tese ou provocar o leitor. A presença da seqüência tipológica argumentativa não retira a subjetividade dos artigos. Eles tanto podem ser redigidos em primeira pessoa (e apresentarem as inúmeras outras marcas de subjetividades que a língua permite), quanto redigidos em terceira pessoa, buscando o máximo de objetividade possível.

Dessa forma, ser um articulista requer habilidade argumentativa (conhecimento dos tipos de argumentos existentes) e profundo conhecimento da língua portuguesa. Ainda é necessário ter convicção de sua opinião sobre o assunto que se pretende tratar e visão ampla sobre seu interlocutor, uma vez que o articulista busca também influenciar seus leitores.

A URNA E A ESCOLA

Roberto Pompeu de Toleto

OTribunal Superior Eleitoral divulgou na semana passada o tamanho e o perfil do eleitorado brasileiro. Quanto ao grau de instrução, dos 135,8 milhões de eleitores, 5,9% são analfabetos, 14,6% dizem saber ler e escrever, mas não frequentaram a escola, e 33% frequentaram a escola mas não chegaram a concluir o 1º grau. Na soma das três categorias, 53,5% do eleitorado na melhor das hipóteses resvalou pela escola. Antes de mais nada, esses porcentuais são de desmontar o delírio de Brasil Grande que assola o país, a começar pela mente desavisada do presidente de turno. Não há país que tenha passado a desenvolvido ostentando tão pobres índices de nível educacional.

Outro lado da questão é a ameaça à qualidade da democracia brasileira, representada por um eleitorado tão mal equipado para se informar, entender o processo e julgar os candidatos. Essa afirmação merece um desconto. Não é que a outra parte do eleitorado – os 46,5% que têm pelo menos o 1º grau completo – seja uma garantia de voto consciente. Sob a Constituição de 1946, os analfabetos estavam impedidos de votar. Nem por isso o período deixou de ser dominado pelos demagogos e pelos coronéis e de abrigar na vida pública corruptos tão notórios quanto os da cena atual. Mas saber ler e interpretar um texto será sempre um instrumento precioso para quem se dispõe a distinguir uma tendência política de outra e a melhor identificar os próprios interesses.

A parte menos informada do eleitorado é em tese a mais sujeita à manipulação. Isso é um problema para a democracia porque, segundo escreveu o cientista político Leonardo Barrem na Folha de S.Paulo, "ela é um sistema interminável que funciona na base da tentativa e erro: punindo os políticos ruins e premiando os bons". O melhor da frase de Barreto é a classificação da democracia como um "sistema interminável". Ela não fecha. Quem fecha, e afirma-se como ponto final das possibilidades de boa condução das sociedades, é a ditadura. Por sua própria natureza, a democracia convida a um perpétuo exercício de reavaliação., Para bem funcionar, exige crítica. Ora, mais apto a exercer a crítica é em tese – sempre em tese – quem passou pela escola.

Como resolver o problema do precário nível educacional do eleitorado? Solução fácil e cirúrgica seria extirpar suas camadas iletradas. Cassem-se os direitos políticos dos analfabetos e semianalfabetos e pronto: cortou-se o mal pela raiz. Além do mais, a solução está em consonância com a prática dos nossos maiores. A história eleitoral do Brasil é um desfile de cassassões a parcelas da população. No período colonial, só podiam eleger e ser eleitos os "homens bons", curiosa e maliciosa expressão que transpõe um conceito moral – o de ""bom" – para uma posição social. "Homens bons" eram os que não tinham o "sangue infecto" – não eram judeus, mouros, negros, índios – nem exerciam "ofício mecânico" – não eram camponeses, artesãos nem viviam de alguma outra atividade manual. Sobravam os nobres representantes da classe dos proprietários e pouco mais. No período imperial, o critério era a renda; só votava quem a usufruísse a partir de certo mínimo. As mulheres só ganharam direito de voto em 1932. Os analfabetos, em 1985. Sim, cassar parte do eleitorado se encaixarià na tradição brasileira. Mas, ao mesmo tempo – que pena –, atentaria contra a democracia. Esta será tão mais efetiva quanto menos restrições contiver à participação popular. Quanto mais restrições, mais restritiva será ela própria.

Outra solução, menos brutal, e por isso mesmo advogada, esta, sim, amplamente, é a conversão do voto obrigatório em voluntário. A suposição é que as camadas menos educadas são as mais desinteressadas das eleições. Portanto, seriam as primeiras a desertar. O raciocínio é discutível. Por um lado, o ambiente em que se pode ou não votar pode revelar-se muito mais favorável à arregimentação de eleitores em troca de favores, ou a fórçá-los a comparecer às urnas mediante ameaça. Por outro, a atração da praia, do clube ou da viagem, se a eleição cai num dia de sol, pode revelar-se irresistível a ponto de sacrificar o voto mesmo entre os mais bem informados. A conclusão é que o problema não é no eleitorado. Não é nele que se deve mexer. Tê-lo numeroso e abrangente é uma conquista da democracia brasileira. O problema está na outra ponta — a da escola. Não tê-la, ou tê-la em precária condição, eis o entrave dos entraves, o que expõe o Brasil ao atraso e ao vexame.

VEJA, 28 de julho de 2010, p. 162

Esse é um bom exemplo de artigo de opinião. O articulista defende a ideia de que os baixos índices educacionais no Brasil são prejudicias à democracia e sugere que a melhor solução para isso não é restringir o eleitorado, tornando o voto facultativo ou permitindo o voto somente àqueles que possuem determinado grau escolar, mas sim investir em educação. O autor utiliza, como recursos, índices percentuais, opiniões de especialistas em ciência política, historiografia oficial brasileira e intertextualidade – presente no título, que sucita o título do livro A bolsa e avida, de Jacques Le Goff – para construir seu ponto de vista.

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