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domingo, 22 de agosto de 2010

GÊNERO – ARTIGO DE OPINIÃO

Artigos de opinião, também conhecidos como artigos assinados, são gêneros que circulam na mídia impressa com o objetivo de apresentar a opinião de seu autor sobre determinado assunto. São textos polêmicos, que buscam persuadir o leitor a concordar com seu ponto de vista e, dessa forma, se tornar mais um simpatizante de sua causa. Por vezes os articulistas – pessoas que escrevem artigo de opinião para – tornam-se personalidades influentes na sociedade. São escritores, especialistas em determinada área, jornalistas, todos imbuídos de fazer sua opinião ter espaço no grande debate midiático.

Devido ao seu aspecto argumentativo, prevalece no artigo de opinião a seqüência tipológica argumentativa. Isso faz o texto apresentar, além do título, uma introdução, na qual uma tese é exposta, um desenvolvimento, no qual argumentos que sustentam essa tese são trabalhados e uma conclusão responsável por reafirmar a tese ou provocar o leitor. A presença da seqüência tipológica argumentativa não retira a subjetividade dos artigos. Eles tanto podem ser redigidos em primeira pessoa (e apresentarem as inúmeras outras marcas de subjetividades que a língua permite), quanto redigidos em terceira pessoa, buscando o máximo de objetividade possível.

Dessa forma, ser um articulista requer habilidade argumentativa (conhecimento dos tipos de argumentos existentes) e profundo conhecimento da língua portuguesa. Ainda é necessário ter convicção de sua opinião sobre o assunto que se pretende tratar e visão ampla sobre seu interlocutor, uma vez que o articulista busca também influenciar seus leitores.

A URNA E A ESCOLA

Roberto Pompeu de Toleto

OTribunal Superior Eleitoral divulgou na semana passada o tamanho e o perfil do eleitorado brasileiro. Quanto ao grau de instrução, dos 135,8 milhões de eleitores, 5,9% são analfabetos, 14,6% dizem saber ler e escrever, mas não frequentaram a escola, e 33% frequentaram a escola mas não chegaram a concluir o 1º grau. Na soma das três categorias, 53,5% do eleitorado na melhor das hipóteses resvalou pela escola. Antes de mais nada, esses porcentuais são de desmontar o delírio de Brasil Grande que assola o país, a começar pela mente desavisada do presidente de turno. Não há país que tenha passado a desenvolvido ostentando tão pobres índices de nível educacional.

Outro lado da questão é a ameaça à qualidade da democracia brasileira, representada por um eleitorado tão mal equipado para se informar, entender o processo e julgar os candidatos. Essa afirmação merece um desconto. Não é que a outra parte do eleitorado – os 46,5% que têm pelo menos o 1º grau completo – seja uma garantia de voto consciente. Sob a Constituição de 1946, os analfabetos estavam impedidos de votar. Nem por isso o período deixou de ser dominado pelos demagogos e pelos coronéis e de abrigar na vida pública corruptos tão notórios quanto os da cena atual. Mas saber ler e interpretar um texto será sempre um instrumento precioso para quem se dispõe a distinguir uma tendência política de outra e a melhor identificar os próprios interesses.

A parte menos informada do eleitorado é em tese a mais sujeita à manipulação. Isso é um problema para a democracia porque, segundo escreveu o cientista político Leonardo Barrem na Folha de S.Paulo, "ela é um sistema interminável que funciona na base da tentativa e erro: punindo os políticos ruins e premiando os bons". O melhor da frase de Barreto é a classificação da democracia como um "sistema interminável". Ela não fecha. Quem fecha, e afirma-se como ponto final das possibilidades de boa condução das sociedades, é a ditadura. Por sua própria natureza, a democracia convida a um perpétuo exercício de reavaliação., Para bem funcionar, exige crítica. Ora, mais apto a exercer a crítica é em tese – sempre em tese – quem passou pela escola.

Como resolver o problema do precário nível educacional do eleitorado? Solução fácil e cirúrgica seria extirpar suas camadas iletradas. Cassem-se os direitos políticos dos analfabetos e semianalfabetos e pronto: cortou-se o mal pela raiz. Além do mais, a solução está em consonância com a prática dos nossos maiores. A história eleitoral do Brasil é um desfile de cassassões a parcelas da população. No período colonial, só podiam eleger e ser eleitos os "homens bons", curiosa e maliciosa expressão que transpõe um conceito moral – o de ""bom" – para uma posição social. "Homens bons" eram os que não tinham o "sangue infecto" – não eram judeus, mouros, negros, índios – nem exerciam "ofício mecânico" – não eram camponeses, artesãos nem viviam de alguma outra atividade manual. Sobravam os nobres representantes da classe dos proprietários e pouco mais. No período imperial, o critério era a renda; só votava quem a usufruísse a partir de certo mínimo. As mulheres só ganharam direito de voto em 1932. Os analfabetos, em 1985. Sim, cassar parte do eleitorado se encaixarià na tradição brasileira. Mas, ao mesmo tempo – que pena –, atentaria contra a democracia. Esta será tão mais efetiva quanto menos restrições contiver à participação popular. Quanto mais restrições, mais restritiva será ela própria.

Outra solução, menos brutal, e por isso mesmo advogada, esta, sim, amplamente, é a conversão do voto obrigatório em voluntário. A suposição é que as camadas menos educadas são as mais desinteressadas das eleições. Portanto, seriam as primeiras a desertar. O raciocínio é discutível. Por um lado, o ambiente em que se pode ou não votar pode revelar-se muito mais favorável à arregimentação de eleitores em troca de favores, ou a fórçá-los a comparecer às urnas mediante ameaça. Por outro, a atração da praia, do clube ou da viagem, se a eleição cai num dia de sol, pode revelar-se irresistível a ponto de sacrificar o voto mesmo entre os mais bem informados. A conclusão é que o problema não é no eleitorado. Não é nele que se deve mexer. Tê-lo numeroso e abrangente é uma conquista da democracia brasileira. O problema está na outra ponta — a da escola. Não tê-la, ou tê-la em precária condição, eis o entrave dos entraves, o que expõe o Brasil ao atraso e ao vexame.

VEJA, 28 de julho de 2010, p. 162

Esse é um bom exemplo de artigo de opinião. O articulista defende a ideia de que os baixos índices educacionais no Brasil são prejudicias à democracia e sugere que a melhor solução para isso não é restringir o eleitorado, tornando o voto facultativo ou permitindo o voto somente àqueles que possuem determinado grau escolar, mas sim investir em educação. O autor utiliza, como recursos, índices percentuais, opiniões de especialistas em ciência política, historiografia oficial brasileira e intertextualidade – presente no título, que sucita o título do livro A bolsa e avida, de Jacques Le Goff – para construir seu ponto de vista.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

DISSERTAÇÃO – TIPOS DE ARGUMENTOS

O posicionamento diante de um tema polêmico resulta sempre em uma tese a ser defendida. É, pois, a função de todo texto argumentativo: persuadir seu interlocutor de que a tese defendida é a mais pertinente. A defesa é feita por meio de argumentos e da relação lógica por eles estabelecida.

Tipos de Argumentos

1. Citações de Autoridade: São argumentos respaldados por pessoas ou instituições reconhecidos pela sociedade. Os argumentos de autoridade, em outras palavras, consistem em citações que corroborem com a tese adotada no texto.

Exemplo:

"Na definição do escritor francês Victor Hugo (1802-1885), ele é "pão maravilhoso que um deus divide e multiplica". Para James Joyce (1882-1941), um dos maiores gênios da literatura moderna, "tudo é certo neste mundo hediondo, exceto ele". Sob a ótica da "dama do suspense" Agatha Christie (1890-1976), "diferente de qualquer outra coisa no mundo (...), ele ousa todas as coisas e extermina sem remorso tudo o que ficar em seu caminho". Na frase do para-choque de caminhão, ele é simplesmente imortal. Não importa o momento histórico, tampouco o prestígio literário de quem o decanta, o amor de mãe é sempre celebrado como o mais sublime dos sentimentos (...)"

Veja, 19 de maio, 2010.

2. Dados Concretos: São argumentos que buscam representar a realidade fidedignamente. Eles buscam ilustrar a realidade de modo irrefutável. Dados estatísticos, pesquisas científicas e ocorrências históricas documentadas são exemplos de argumentos concretos. Muitas vezes os Argumentos de Autoridade e Argumentos Concretos se misturam. Quando isso ocorre, a argumentação torna-se mais densa ainda.

Exemplo:

"A aplicação de castigo físico a mulheres de 'mau comportamento' continua a ser vista como um dever e um direito da família. Uma pesquisa feita em 2008 com 4700 afegãs mostrou que 87% já tinha sido vítimas de espancamentos ou abusos sexuais e psicológicos – em 82% dos casos, infligidos por aparentes."

Veja, 19 de maio, 2010.

3. Exemplificação: São argumentos criados a partir de exemplos. Esses exemplos podem se originar de Citações de Autoridade ou de Dados concretos. O importante é que tenham validade perante o assunto, não reproduzindo senso comum e nem invenção.

Exemplo:

"... uma dasmais formidáveis conseqüências morais do crescimento econômico, e talvez, um de seus motores, é justamente a retirada da cargade culpa dos ombros de quem se empenha em acumular riqueza. O exemplo mais clássico disso vem da China, que, depois de sobreviver por milênios no nível mínimo de subsistência, foi tocada pela palavra de ordem 'enriquecer é glorioso, criada pelo líder Deng Xiaoping, morto em, 1997."

Veja, 19 de maio, 2010

4. Refutação: São argumentos que se originam dos que sustentam o ponto de vista oposto. A refutação pode acontecer por meio de Citações de Autoridade, de Dados Concretos ou de Exemplificações. O que importa é que ele refute diretamente a sustentação do ponto de vista alheio, corroborando, assim, com a tese pela qual o texto argumentativo se desenvolve.

Exemplo:

"'Não há razão alguma para uma pessoa possuir um computador em sua casa.' Isso foi dito em 1977, por K. Olsen, fundador da Digital. De fato, os computadores eram apenas máquinas de fazer contas, pesadas e caras. Mas, com os avanços, passaram também a guardar palavras. Aparece então a era dos bancos de dados..."

Veja, 19 de maio, 2010

5. Consenso: São argumentos estabelecidos pelo senso comum de uma determinada cultura. São argumentos que, quando bem selecionados, podem ser irrefutáveis, pois há algumas afirmações que se tornam axiomas em determinadas sociedades. Ninguém, por exemplo, questiona a importância da educação para o desenvolvimento social.

Exemplo:

“Atualmente, considera-se a educação um dos setores mais importantes para o desenvolvimento de uma nação. É através da produção de conhecimentos que um país cresce, aumentando sua renda e a qualidade de vida das pessoas. Embora o Brasil tenha avançado neste campo nas últimas décadas, ainda há muito para ser feito. A escola (Ensino Fundamental e Médio) ou a universidade tornaram-se locais de grande importância para a ascensão social e muitas famílias tem investido muito neste setor.”

6. Emoção: São argumentos pautados em dados concretos ou em exemplificações que mexem com o emocional. Assim como o consenso, dependem da cultura para terem validade. Argumentos de cunho emocional não são bem vistos em textos mais sérios, mas são excelentes recursos persuasivos.

Exemplo:

“Tenho certeza de que um mendigo morto na beira da praia causaria menos comoção do que uma baleia. Nenhum Greenpeace defensor de seres humanos se moveria. Nenhuma manchete seria estampada. Uma ambulância talvez levasse horas para chegar, o corpo coberto por um jornal, quem sabe uma vela acesa.”

Veja, 11 de abril de 2005

7. Raciocínio Lógico: Não constitui uma espécie propriamente dita de argumentação. Diz respeito à forma como os argumentos são relacionados no texto. Escolher argumentos válidos é um posso importante para elaborar a argumentação, porém, não é suficiente. É necessário estabelecer relações lógicas entre eles para que não haja fuga do tema ou tautologias. Alguns exemplos de raciocínio lógico:

· Prova concreta e Citação de Autoridades: Usa-se muitas vezes um dado estatístico ou uma citação para comprovar verdades gerais; mostrar suas causas ou consequências. Ainda se podem utilizar dados históricos para ilustrar um fato geral ou fazer analogias.

· Exemplificação: Parte-se de uma exemplificação para se extrair uma conclusão geral, a qual sustente uma asserção.

8. Competência lingüística: Também não está relacionado a uma espécie propriamente dita de argumento. Refere-se ao registro lingüístico utilizado para argumentação. Cada situação argumentativa requer um registro lingüístico diferente, uma seleção vocabular adequada e um estilo apropriado. A competência lingüística é o modo de valorizar sua argumentação pelo uso do português.

Exemplo:

“Não sou biólogo e tenho que puxar pela memória dos tempos de colegial para recordar a diferença entre uma mitocôndria e uma espermatogônia. Ainda lembro bastante para qualificar a canetada de FHC de ‘defecatio máxima’ (este espaço é nobre demais para que nele se escrevam palavras de baixo calão, como em latim tudo é elevado...).”

Folha de São Paulo, 01 de outubro de 1995

sexta-feira, 7 de maio de 2010

DISSERTAÇÃO – MODELOS DE PARÁGRAFO INTRODUTÓRIO

  • Uma declaração (tema: liberação da maconha)

É um grave erro a liberação da maconha. Provocará de imediato violenta elevação do consumo. O Estado perderá o precário controle que ainda exerce sobre as drogas psicotrópicas e nossas instituições de recuperação de viciados não terão estrutura suficiente para atender à demanda.

Alberto Corazza, Istoé, 20 dez. 1995.

  • Definição (tema: o mito)

O mito, entre os povos primitivos, é uma forma de situar no mundo, isto é, de encontrar o seu lugar entre os demais seres da natureza. É um modo ingênuo, fantasioso, anterior a toda reflexão e não-crítico de estabelecer algumas verdades que não só explicam parte dos fenômenos naturais ou mesmo a construção cultural, mas que dão, também, as formas da ação humana.

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda & MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia. São Paulo, Moderna, 1992. p. 62.

  • Divisão (tema: exclusão social)

Predomina ainda no Brasil duas convicções errôneas sobre o problema da exclusão social: a de que deve ser enfrentada apenas pelo poder público e a de que sua superação envolve muitos recursos e esforços extraordinários. Experiências relatadas nesta Folha mostram que o combate à marginalidade social em Nova York vem contando com intensivos esforços do poder público e ampla participação da iniciativa privada.

Folha de S. Paulo, 17 dez. 1996.

  • Oposição (tema: educação no Brasil)

De um lado, professores mal pagos, desestimulados, esquecidos pelo governo. De outro, gastos excessivos com computadores, antenas parabólicas, aparelhos de videocassete. É este o paradoxo que vive hoje a educação no Brasil.

Vários motivos me levaram a este livro. Dois se destacam pelo grau de envolvimento: raiva e esperança. Explico-me: raiva por ver quanto a cultura ainda é vista como artigo supérfluo em nossa terra; esperança por observar quantos movimentos culturais têm acontecido em nossa história, e quase sempre como forma de resistência e/ou transformação. (...)

FEIJÓ, Martim César. O que é política cultural. São Paulo, Brasiliense, 1985. p. 7.

  • Alusão histórica (tema: globalização)

Após a queda do muro de Berlim, acabaram-se os antagonismos leste-oeste e o mundo parece ter aberto de vez as portas para a globalização. As fronteiras foram derrubadas e a economia entrou em rota acelerada de competição.

  • Ilustração (tema: aborto)

O Jornal do Comércio, de Manaus, publicou um anúncio em que uma jovem de dezoito anos, já mãe de duas filhas, dizia estar grávida mas não queria a criança. Ela a entregaria a quem se dispusesse a pagar sua ligação de trompas. Preferia dar o filho a ter que fazer aborto.

Antonio Carlos Viana, O quê, edição de 16 a 22 jul. 1994.

  • Uma pergunta (tema: a saúde no Brasil)

Será que é com novos impostos que a saúde melhorará no Brasil? Os contribuintes já estão cansados de tirar dinheiro do bolso para tapar um buraco que parece não ter fim. A cada ano, somos lesados por novos impostos para alimentar um sistema que só parece piorar.

  • Uma frase nominal seguida de explicação (tema: a educação no Brasil)

Uma tragédia. Essa é a conclusão da própria Secretaria de Avaliação e Informação Educacional do Ministério da Educação e Cultura sobre o desempenho dos alunos do 3º ano do 2º grau submetidos ao Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), que ainda avaliou estudantes da 4ª série e da 8ª série do 1º grau em todas as regiões do território nacional.

Folha de S. Paulo, 27 nov. 1996.

  • Adjetivação (tema: a educação no Brasil)

Equivocada e pouco racional. Esta é a verdadeira adjetivação para a política educacional do governo.

Anderson Sanches, Infocus, n.5, ano 1, 1996. p. 2.

  • Citação (tema: política demográfica)

"As pessoas chegam ao ponto de uma criança morrer e os pais não chorarem mais, trazerem a criança, jogarem num bolo de mortos, virarem as costas e irem embora". O comentário, do fotógrafo Sebastião Salgado, falando sobre o que viu em Ruanda, é um acicate no estado de letargia ética que domina algumas nações do primeiro mundo.

DI FRANCO, Carlos Alberto. Jornalismo, ética e qualidade. Rio de Janeiro, Vozes, 1995. p. 73.

  • Citação de forma indireta (tema: comunismo)

Para Marx a religião é o ópio do povo. Raymond Aron deu o troco: o marxismo é o ópio dos intelectuais. Mas nos Estados Unidos o ópio do povo é mesmo ir às compras. Como as modas americanas são contagiosas, é bom ver de que se trata.

Cláudio de Moura e Castro, Veja, 13 nov. 1996.

  • Exposição do ponto de vista oposto (tema: o provão)

O ministro da Educação se esforça para convencer de que o provão é fundamental para a melhoria da qualidade do ensino superior. Para isso, vem ocupando generosos espaços na mídia e fazendo milionária campanha publicitária, ensinando como gastar mal o dinheiro que deveria ser investido na educação.

Orlando Silva Júnior e Eder Roberto Silva, Folha de S. Paulo, 5 nov.1996.

  • Comparação (tema: reforma agrária)

O tema da reforma agrária está presente há bastante tempo nas discussões sobre os problemas mais graves que afetam o Brasil. Numa comparação entre o movimento pela abolição da escravidão no Brasil, no final do século passado e, atualmente, o movimento pela reforma agrária, podemos perceber algumas semelhanças. Como na época da abolição da escravidão existiam elementos favoráveis e contrários a ela, também hoje há os que são a favor e os que são contra a implantação da reforma agrária no Brasil.

OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à sociologia. São Paulo, Ática, 1991. p. 101.

  • Retomada de um provérbio (tema: mídia e tecnologia)

O corriqueiro adágio de que o pior cego é o que não quer ver se aplica com perfeição na análise sobre o atual estágio da mídia: desconhecer ou tentar ignorar os incríveis avanços tecnológicos de nossos dias, e supor que eles não terão reflexos profundos no futuro dos jornais é simplesmente impossível.

Jayme Sirotsky, Folha de S. Paulo, 5 dez. 1995.

  • Uma seqüência de frases nominais (frases sem verbos) (tema: a impunidade no Brasil)

Desabamento de shopping em Osasco. Morte de velhinhos numa clínica do Rio. Meia centena de mortes numa clínica de hemodiálise em Caruaru. Chacina de sem-terra em Eldorado dos Carajás.

  • Alusão a um romance, um conto, um poema, um filme (tema: a intolerância religiosa)

Quem assistiu ao filme A rainha Margot, com deslumbrante Isabelle Adjani, ainda deve ter os fatos vivos na memória. Na madrugada de 24 de agosto de 1572, as tropas do rei da França, sob ordens de Catarina de Médicis, a rainha-mãe e verdadeira governante, desencadearam uma das mais tenebrosas carnificinas da História. (...)

Desse horror a História do Brasil está praticamente livre. (...)

Veja, 25 out. 1995.

  • Descrição de um fato de forma cinematográfica (tema: violência urbana)

Madrugada de 11 de agosto, Moema, bairro paulistano de classe média. Choperia Bodega – um bar da moda, freqüentado por jovens bem-nascidos.

Um assalto. Cinco ladrões. Todos truculentos. Duas pessoas mortas: Adriana Ciola, 23, e José Renato Tahan, 25. Ela, estudante. Ele, dentista.

Josias de Souza, Folha de S. Paulo, 30 set. 1996.

  • Omissão de dados identificadores (tema: ética)

Mas o que significa, afinal, esta palavra que virou bandeira da juventude? Com certeza não é algo que se refira somente à política ou às grandes decisões do Brasil e do mundo. Segundo Tarcísio Padilha, ética é um estudo filosófico da ação e da conduta humanas cujos valores provêm da própria natureza do homem e se adaptam às mudanças da história e da sociedade.

O Globo, 13 set. 1992.

DISSETAÇÃO – POSICIONAMENTO PERANTE O TEMA

Algo essencial para consistência argumentativa da dissertação é o posicionamento. Você pode concordar ou discordar de um tema, desde que tenha subsídios para defender seu ponto de vista.

Para se posicionar, na maioria das vezes, é preciso extrair perguntas do tema.

"A importância da língua nacional para a conquista e manutenção da independência de um país"

A língua nacional é importante para a conquista e manutenção da independência de um país?

Sim. Eu concordo, e meus argumentos são A1 e A2.

Não. Eu não concordo, e meus argumentos são A3 e A4.

No vestibular, é importante se posicionar diante do tema pensando nos argumentos. Se for mais fácil defender um posicionamento que não apetece, não há por que não fazê-lo.

DISSERTAÇÃO – COMPREENSÃO DO TEMA

A compreensão de tema é necessária para que se saiba exatamente o que se pretende escrever. É comum redações de vestibulares apresentarem problemas quanto à delimitação do tema, uma vez que o vestibulando muitas vezes não se preocupa em compreender, de fato, a proposta antes de começar a escrever.

Para se compreender o tema, é preciso atentar-se para o recorte que sempre é feito em um assunto e para aspectos gramaticais e discursivos que o envolvem.

Observe o exemplo abaixo. É um recorte no assunto Língua. Ou no assunto Independência de um país.

A importância da língua nacional para a conquista e manutenção da independência de um país.

Quais aspectos lingüísticos podem nos ajudar a compreender esse tema?

Substantivos: importância; conquista e manutenção;

Adjetivos/Loc. Adjetivas: da língua nacional; de um país;

Complmentos: da independência

Circunstâncias: para a conquista e manutenção da independência de um país;

Os substantivos importância, conquista e manutenção evidenciam logo que a dissertação deve apresentar um posicionamento acerca desses três pontos. Não se deve, pois, falar apenas da importância da língua, tampouco do papel da língua da conquista e na manutenção da identidade do país. Deve, sim, argumentar, a favor ou contra, a importância que a língua nacional tem para a conquista e a manutenção da independência de um país. Caso o candidato apenas discorra sobre como a língua nacional constrói a identidade de um país, deixa de abarcar todo tema. E se fala da importância da língua, sem restringir essa importância à conquista e à manutenção da independência, extrapolá-o.

E quais aspectos discursivos podem nos ajudar a compreender esse tema?

Além dessa análise linguística, candidato tentar apreender as relações discursivas presentes no tema. Por exemplo: é preciso entender que relação esse tema tem com a história. Perguntas como "Houve algum episódio histórico no qual a língua nacional foi importante para a conquista e para a manutenção da independência de um país?" "Quais exemplos ou quais citações posso conciliar com esse tema?" Com certeza, ao fazer isso, as ideias começaram a surgir e todas estarão relacionadas ao tema proposto.

Os aspectos discursivos, em alguns casos, serão mais importantes do que os aspectos linguísticos. O seguinte tema, por exemplo:

Os poderosos podem matar uma, duas ou até três rosas, mas jamais poderão deter a primavera.

Che Guevara

Não é para falar de um homem poderoso, que não gosta de rosas. É para interpretar as figuras existentes na frase e relacioná-las com algum aspecto histórico pertinente.

DISSERTAÇÃO – COMPREENDENDO A PROPOSTA

Antes de pensar no tema, no posicionamento e nos argumentos é preciso saber o que realmente se deve fazer, isto é, deve-se ter certeza de que é realmente uma dissertação que o vestibular pede. Embora ela seja comum, não são todas as propostas que requerem uma dissertação-argumentativa. E fazer uma dissertação no lugar de uma narração é dar adeus à vaga.

Sendo assim, antes de verificar qual o tema da proposta, é preciso:

  • Ver se a proposta é discursiva ou não. Propostas discursivas simulam situações reais de comunicação. Para fazê-las corretamente, deve-se atender a essa simulação.
  • Ver se a proposta requer um gênero específico ou não. Se for uma fábula, qualquer texto narrativo não serve. É preciso que seja um com as características de fábula. Se for uma carta-argumentativa, é preciso que seja um texto com características de carta. Qualquer dissertação argumentativa não atende à proposta.
  • Verificar o número de linhas. Uma linha é contada a partir da metade. Ultrapassar o número de linhas é fugir da proposta.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

DISSERTAÇÃO

Dissertar é debater um tema, é apresentar e defender idéias a respeito de um assunto proposto como problema para ser discutido. A atividade dissertativa revela-se vital para o desenvolvimento da inteligência, para a elaboração pessoal de idéias, para a capacidade de raciocínio e para exposição lógica. Por esse motivo, dissertar requer, antes de tudo, um conhecimento aprofundado do tema, um planejamento cuidadoso do texto e um desenvolvimento eficiente da prosa.

O conhecimento aprofundado do tema é resultado de boas práticas de leitura. Ler constantemente aumenta o conhecimento de mundo e desenvolve a prática interpretativa, requisitos indispensáveis para se escrever. Além disso, o conhecimento aprofundado de uma temática é também consequência da compreensão da proposta de escrita e da utilização dos textos de apoio. Ora, não saber com exatidão o que necessariamente deve-se escrever resulta, obviamente, em problemas quanto ao tema: a fuga ou a inadequação.

Já o planejamento do texto consiste na forma como se organiza as idéias no papel. Nada adianta saber deveras o assunto, se não se consegue sistematizá-lo de forma inteligível. Por esse motivo, a dissertação deve se originar de um bom plano textual (PT), no qual o autor planeje a forma de argumentação, os argumentos e os exemplos a serem utilizados. Isso influenciará na paragrafação do texto, uma vez que, ao fazer o PT, cada parágrafo do texto ganha vida antes mesmos de ser escrito.

O conhecimento vasto e a boa organização textual, entretanto, só serão eficientes se a dissertação não apresentar problemas na prosa. Ideias originais organizadas de forma clara e objetiva podem ser colocadas a perder, caso o texto dissertativo tenha problemas quanto a termos erroneamente usados, a frases mal formuladas e a pontuação impropriamente empregada. Dissertar requer linguagem precisa, não rebuscada, mas bem formulada, pois não se pode colocar ideias a perder por causa de inadequações de linguagem.

Vê-se, portanto, que dissertar requer não apenas criatividade, mas organização e planejamento também. Isso porque a tipologia dissertativa é mais calcada na lógica do que na ficção, caracteriza-se mais pelo ato de persuadir do pelo ato de informar ou de entreter. Dissertar é, pois, argumentar, é agir diretamente no mundo, é mostrar a própria voz e demonstrar que ela tem valor.

NARRAÇÃO - ESTRUTURA

A narrativa ortodoxamente divide-se em três partes: Apresentação, Desenvolvimento e Desfecho.

Apresentação

É necessário apresentar ao leitor a história como um todo. Então pensemos que as personagens, o cenário, os fatos ocorridos, o motivo que provocou o enredo, o período de tempo, tudo isso deve ser apresentado diante do leitor para que ele possa captar os sentidos daquilo que é narrado. Quando surge uma personagem nova, ou o ambiente muda, é preciso que o leitor "veja", note e perceba cada passo sugerido pelas mudanças. É o narrador é quem revela tudo isso.

Desenvolvimento

O desenvolvimento é o próprio enredo (as ações, os fatos seqüenciados coerentemente) que deve revelar a trama (entre as personagens, ou de uma personagem em conflito pessoal). A trama, ou conflito, é o ponto alto do enredo, é o "problema" criado pelo escritor para promover a expectativa do leitor. É no conflito que encontramos o clímax, ou seja, o ponto maior, o ápice dos acontecimentos.

Desfecho

Com a revelação do Clímax, a trama já pode – e deve – ser resolvida. O conflito precisa ser solucionado. Isso é perceptível nas redações de vestibular, quando o número de linhas é relativamente limitado e não raramente o Clímax e o desfecho são coincidentes.

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número

Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

(Manoel Bandeira)

- Apresentação: "João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número"

- Desenvolvimento:

- Conflito: "Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro"

- Clímax: "Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas"

- Desfecho: "e morreu afogado."

* Texto adaptado de "Língua Portuguesa 6". Editora COC.

NARRAÇÃO – ELEMENTOS

É comum, nas narrativas, se encontrar os seguintes elementos:

Foco narrativo

Para contar uma história é preciso que o narrador tenha exposta a sua voz, ou o seu foco narrativo.

- Narrador-Observador: É aquele que conta a história através de uma perspectiva de fora da história. Ele não se confunde com nenhum personagens. Este foco narrativo se dá, predominantemente, em terceira pessoa.

- Narrador Personagem: É aquele que conta a história através de uma perspectiva de dentro da história. Ele, de alguma forma, participa do enredo, sendo um dos personagens da história. Este foco narrativo se dá, predominantemente, em primeira.

Personagens

Suportam o enredo, visto que é através delas que a ação se concretiza. Adquirem "forma" durante a evolução da narrativa, ao que conhecemos por caracterização.

Cenário

Numa narrativa podem aparecer vários ambientes diferentes, nos quais os fatos determinantes do enredo se desenrolam. A sua apresentação ao leitor pode ser feita, de acordo com o estilo da história, objetiva ou subjetivamente, por essa razão caracterizá-lo(s) valorizando detalhes pode realçar, e muito, o "clima" da história. O cenário é uma das mais importantes categorias da narrativa.

Tempo

Há formas distintas de o narrador revelar o tempo em que os fatos aconteceram:

- Tempo cronológico: é o tempo real, cuja marcação pode ser prevista pelo leitor (anos, meses, dias, horas, poucos instantes).

- Tempo psicológico: aquele que flui da mente das personagens.

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número

Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

(Manoel Bandeira)

- Foco narrativo: "Narrador observador".

- Personagem: "João Gostoso"

- Cenário: "Bar vinte de Novembro / Lagoa Rodrigo de Freitas. "

- Temporalidade: "Uma noite chegou > Depois se atirou".

* Texto adaptado de "Língua Portuguesa 6". Editora COC.

NARRAÇÃO

Compreendemos como narração o início, o meio e o fim de uma cadeia de acontecimentos coerentes, todos determinados por uma relação temporal lógica, através da qual a transformação das personagens fica evidente ao longo do enredo. É contar uma história, real ou fictícia.

Depois do jantar

Também, que idéia a sua: andar a pé, margeando a Lagoa Rodrigo de Freitas, depois do jantar. O vulto caminhava em sua direção, chegou bem perto, estacou à sua frente. Decerto ia pedir-lhe um auxílio.

— Não tenho trocado. Mas tenho cigarros. Quer um?

— Não fumo, respondeu o outro.

Então ele queria é saber as horas. Levantou o antebraço esquerdo, consultou o relógio:

— 9 e 17... 9 e 20, talvez. Andaram mexendo nele lá em casa.

— Não estou querendo saber quantas horas são. Prefiro o relógio.

— Como?

— Já disse. Vai passando o relógio.

— Mas ...

— Quer que eu mesmo tire? Pode machucar.

— Não. Eu tiro sozinho. Quer dizer... Estou meio sem jeito. Essa fivelinha enguiça quando menos se espera. Por favor, me ajude.

O outro ajudou, a pulseira não era mesmo fácil de desatar. Afinal, o relógio mudou de dono.

— Agora posso continuar?

— Continuar o quê?

— O passeio. Eu estava passeando, não viu?

— Vi, sim. Espera um pouco.

— Esperar o quê?

— Passa a carteira.

— Mas...

— Quer que eu também ajude a tirar? Você não faz nada sozinho, nessa idade?

— Não é isso. Eu pensava que o relógio fosse bastante. Não é um relógio qualquer, veja bem. Coisa fina. Ainda não acabei de pagar...

— E eu com isso? Então vou deixar o serviço pela metade?

— Bom, eu tiro a carteira. Mas vamos fazer um trato.

— Diga.

— Tou com dois mil cruzeiros. Lhe dou mil e fico com mil.

— Engraçadinho, hem? Desde quando o assaltante reparte com o assaltado o produto do assalto?

— Mas você não se identificou como assaltante. Como é que eu podia saber?

— É que eu não gosto de assustar. Sou contra isso de encostar o metal na testa do cara. Sou civilizado, manja?

— Por isso mesmo que é civilizado, você podia rachar comigo o dinheiro. Ele me faz falta, palavra de honra.

— Pera aí. Se você acha que é preciso mostrar revólver, eu mostro.

— Não precisa, não precisa.

— Essa de rachar o legume... Pensa um pouco, amizade. Você está querendo me assaltar, e diz isso com a maior cara-de-pau.

— Eu, assaltar?! Se o dinheiro é meu, então estou assaltando a mim mesmo.

— Calma. Não baralha mais as coisas. Sou eu o assaltante, não sou?

— Claro.

— Você, o assaltado. Certo?

— Confere.

— Então deixa de poesia e passa pra cá os dois mil. Se é que são só dois mil.

— Acha que eu minto? Olha aqui as quatro notas de quinhentos. Veja se tem mais dinheiro na carteira. Se achar uma nota de 10, de cinco cruzeiros, de um, tudo é seu. Quando eu confundi você com um, mendigo (desculpe, não reparei bem) e disse que não tinha trocado, é porque não tinha trocado mesmo.

— Tá bom, não se discute.

— Vamos, procure nos... nos escaninhos.

— Sei lá o que é isso. Também não gosto de mexer nos guardados dos outros. Você me passa a carteira, ela fica sendo minha, aí eu mexo nela à vontade.

— Deixe ao menos tirar os documentos?

— Deixo. Pode até ficar com a carteira. Eu não coleciono. Mas rachar com você, isso de jeito nenhum. É contra as regras.

— Nem uma de quinhentos? Uma só.

— Nada. O mais que eu posso fazer é dar dinheiro pro ônibus. Mas nem isso você precisa. Pela pinta se vê que mora perto.

— Nem eu ia aceitar dinheiro de você.

— Orgulhoso, hem? Fique sabendo que tenho ajudado muita gente neste mundo. Bom, tudo legal. Até outra vez. Mas antes, uma lembrancinha.

Sacou da arma e deu-lhe um tiro no pé.

(Carlos Drumonnd de Andrade)

Texto extraído do livro "Os dias lindos", Livraria José Olympio Editora — Rio de Janeiro, 1977, pág. 54.

DESCRIÇÃO

A Descrição nada mais é do que uma espécie de foto verbal. É, pois, a sequência tipológica que permite caracterizar um objeto, cenário, personagem, ou algo de ordem abstrata, por meio de palavras. A Descrição geralmente aparece junto de outras tipologias, como forma de enriquecê-las. São, pois, fundamentais momentos descritivos em textos narrativos – por exemplo – para descrever personagens, cenários e temporalidades.

São algumas características da descrição:

- frases sincopadas, curtas e nominais;

- verbos de estado;

- revelações cromáticas e térmicas por meio dos sensores humanos;

- simultaneidade dos fatos;

- adjetivação.

TIPOS DE DESCRIÇÃO

Descrição objetiva

Quando o elemento descrito é apresentado referencialmente, isto é, com precisão e de forma concreta.

Ex.:

Era morena, cabelos longos e lisos, dum castanho forte, como seus olhos. Possuidora de um temperamento dócil até certo ponto, austero e insuportável em outro. Mas formosa e inteligente, não sabia tirar notas abaixo de dez.

Descrição subjetiva

Quando a emoção impera, isto é, quando o elemento descrito assume a visão de quem o escreve.

Ex.:

Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar pulso ao homem. Não só as condecorações gritavam-lhe no peito como uma couraça de grilos. Ateneu! Ateneu! Aristarco todo era um anúncio; os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei...

POMPÉIA, Raul. In O Ateneu

Descrição estática

Ausência de movimento entre os elementos captados, objetiva ou subjetivamente, por quem os descreve.

Ex.:

As flores do jardim lhe inspiravam tranqüilidade. Quem sabe porque o clima de um cemitério é sempre assim, de silêncio, sem vento, sem papel no chão. Tudo era morte, até dentro do coração dele que, naquele momento, sentiu-se mais morto como todos os que ali jaziam. A pior morte é a da solidão em vida.

Descrição dinâmica

Embora haja movimento, a simultaneidade das ações impede que ocorra de fato a narração de acontecimentos, mas a descrição de movimentos inependentes entre si.

Ex.:

Aquela sala de aula era estranha para ele. Cadeiras azuis, nas quais alguns alunos retorciam-se nas conversas com os colegas, ora rindo, ora sisudos. De um lado havia um grupo de moças que mexiam seus cabelos a todo instante, para lá, depois para cá. De outro, alguns rapazes pareciam disputar um campeonato para se saber quem melhor que o companheiro – ou adversário – conseguia virar a caneta entre os dedos. Aquela seria uma sala de aula, a sua, mais exatamente, por um ano inteiro?

* Texto adaptado de "Língua Portuguesa 6", Editora COC.

sábado, 24 de abril de 2010

FUNÇÕES DA LINGUAGEM

Roman Jakobson, uns dos linguístas responsáveis pela fundação do Círculo Lingüístico de Praga,elaborou da teoria que propõe a determinação de um esquema que represente o ato da fala. Segundo Jakobson, quando um falante qualquer faz uso da língua, verbalmente ou não, ocorre a interação dos seguintes elementos de comunicação:

- emissor: sujeito que produz um discurso e o destino a outrem;

- receptor: sujeito (s) a quem é destinado o discurso;

- canal: meio físico pelo qual o discurso é propagado;

- mensagem: todas as informações que compõem o discurso;

- código: conjunto de signos linguísticos, comum entre os falantes, por meio do qual o receptor consegue decodificar o discurso recebido;

- referente: o contexto, isto é, o assunto sobre o qual se refere o discurso.

Sempre que nos comunicamos, temos uma intenção, uma finalidade. Daí o fato de certas expressões e combinações de vocabulário serem perfeitamente adequadas a certas situações e absolutamente inoportunas em outras. Essa intenção determina as funções da linguagem.

- Função emotiva: também chamada de expressiva, ocorre quando o emissor revela seus sentimentos, opiniões, sensações. Evidencia o uso da 1ª pessoa (singular, plural) e, portanto, a subjetividade de quem fala.

- Função conativa: recebe também o nome de apelativa. Marca o receptor da mensagem quando esta a ele é dirigida em forma de um apelo volitivo ou uma ordem. Por essa razão nela encontramos a 2ª e 3ª pessoas, que são as destinatárias do discurso, ou verbos no imperativo.

- Função fática: entre os interlocutores é necessário um canal de comunicação. É pelo canal que a comunicação se estabelece, por isso ele precisa estar em perfeita harmonia para que nenhum "ruído" coloque em risco o envio, a captação e o entendimento da mensagem. Então, o emissor faz uso de expressões fáticas quando visa estabelecer contato com algum receptor e, também, quando buscar checar o funcionamento e a "limpeza" do canal, sem a preocupação com o conteúdo da mensagem.

- Função poética: tem a finalidade de propor à mensagem determinada singularidade. Por isso a subjetividade e os arranjos sonoro e estético do texto são fundamentais, tão característicos na poesia.

- Função metalingüística: é encontrada quando o código fica em evidência no texto, isto é, quando o código usado na comunicação faz referência a ele mesmo (um texto falando sobre o texto, uma poesia versando sobre o fazer poético, a língua usando das regras (normativas ou não) para explicar-se.

- Função referencial: busca exatamente no contexto sua razão de acontecer. É conhecida também como denotativa e ainda como informativa. O contexto, isto é, o referente, o assunto ao qual se refere toda a mensagem, deve ser explorado com objetividade, usando ao máximo da precisão das informações e com imparcialidade. É características dos textos jornalísticos e científicos.

* Texto adaptado de "Língua Portuguesa 6", Editora COC.